Social TV: uma nova experiência televisiva

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Colaboração de Daiana Sigliano (UFJF)

Publicada anualmente pelo Massachusetts Institute of Technology o Breakthrough Technologies lista as dez tecnologias emergentes consideradas mais promissoras pelos pesquisadores do instituto. A seleção abrange distintas áreas de pesquisa, os escolhidos vão desde a criação de biocombustíveis, células solares mais eficientes, combate ao aquecimento global, desenvolvimento de medicamentos para doenças, mapeamento cerebral, armazenamento de dados em nuvem, até telas 3D em dispositivos móveis (TECHNOLOGY REVIEW, 2014). Para entrar em uma das listas mais influentes do mundo, capaz de impactar as esferas comerciais, políticas e sociais, basta se enquadrar em uma pergunta: ela tem potencial transformador?[1]. Segundo o MIT este é o cerne do Breakthrough Technologies, não importa a área de aplicabilidade, mas a capacidade de transformação da tecnologia empregada (BULKELEY, 2010). Foi assim que a Social TV ficou conhecida pelo grande público. Apesar ter sido cunhado em 2008 por Klym e Montpetit – do Research Lab for Electronics do MIT – o fenômeno só se popularizou depois de ser apontado pelo instituto como uma das principais promessas de 2010 (TECHNOLOGY REVIEW, 2010). A Social TV se refere à utilização das redes sociais, em especial o Twitter, de maneira síncrona à programação televisiva (PROULX e SHEPATIN, p. ix, 2012). O fenômeno resgata elementos que sempre fizeram parte da televisão: o watercooler[2] e a experiência compartilhada.

A TV favorece a interação social, os comentários durante a programação integram seu modo de recepção. Entretanto, na Social TV as impressões que antes esvaneciam na sala de estar dos telespectadores são transportadas para o ciberespaço. Jeffrey Cole, diretor do Centro para o Futuro Digital da University of Southern California, afirma que essa integração entre o conteúdo televisivo e o Twitter fez com que o público redescobrisse a experiência coletiva e o appotintment televison[3] na Post-Network Television. Segundo o pesquisador, em 1974 a média estadunidense era de 16 horas semanais em frente à TV, em 2010 esse número chegou a 36 horas (ISTO É NEGÓCIOS, 2011). Jeffrey afirma que o crescimento é uma consequência do co-viewing virtual. A Social TV resgata o modelo de televisão da década de 1970, em que toda família se reunia em torno do aparelho. Porém, na contemporaneidade, o núcleo familiar dá lugar ao ciber-watercooler e estabelece novos laços sociais.  Wolton (1996, p.123-124) defende que a televisão tem o poder de reunir sujeitos de distintas camadas sociais em torno de uma atividade simultânea. A TV se torna peça fundamental na construção e no compartilhamento de uma esfera pública de debates; e na formação de laços entre o indivíduo e a massa, o particular e o geral. Na Social TV este laço social se estabelece também no ciberespaço, pois além de comentar a programação com os amigos, vizinhos ou colegas de trabalho os telespectadores compartilham suas opiniões nas redes sociais. O público tem a oportunidade não só de integrar o backchannel[4], mas de produzir e interagir com as distintas camadas narrativas dos programas através de aplicativos e ações devolvidas pelas emissoras.

As novas dinâmicas do watercooler e da experiência compartilhada são apenas o ponto de partida para o espectro de possibilidades criadas pela Social TV. Além de proporcionar a simbiose entre o ambiente televisivo e o computacional, a TV em duas telas funciona como uma espécie de monitor cardíaco da audiência. Através da Interface de Programação de Aplicações do Twitter e da mineração das hashtags, as emissoras podem acompanhar em tempo real o perfil demográfico e psicográfico do seu público. Hill (2014) pontua que os vestígios digitais deixados pelos telespectadores ao comentarem uma atração na rede social possibilitam que os canais reúnam, de uma maneira até então inédita, informações sobre os hábitos e preferências da audiência. Com base nesses dados, os anunciantes e as emissoras tem a oportunidade de criar produtos mais eficazes e segmentados.

As produções ficcionais seriadas estadunidenses sempre estiveram na vanguarda no que se refere à aplicação dos fenômenos da Cultura da Convergência (JENKINS 2008; ROSE, 2010). Programas como Lost (2004), Chuck (2007) e Fringe (2008) fundamentaram a transmídia e a cultura participativa de uma maneira inédita, o mesmo pode ser observado na Social TV. As séries de TV se destacam não só por incorporarem as características do fenômeno, mas por serem pioneiras no desenvolvimento de ações. Porém, Montpetit (2012) destaca a complexidade do ecossistema da TV em duas telas. Segundo a autora, cada gênero, cada programa se comporta de forma distinta diante das possibilidades imersivas, participativas e interativas do fenômeno.

A Social TV marca uma nova fase na produção, recepção e interação do sujeito contemporâneo com conteúdo televisivo. Conforme defende Proulx “The TV today has become, once again, a new media[5]” (LOST REMOTE, 2011). Uma TV que não só se atualiza diante das potencialidades do ambiente de convergência, mas resgata características que sempre a integraram em uma experiência imersiva que vai além da tela.

[1] Livre tradução para: “Is the technology likely to change the world?” (BULKELEY, 2010)

[2] Comentários feitos durante ou depois da programação televisiva.

[3] “Assistir em tempo real”, ou popularmente chamado “televisão com hora marcada”.

[4] Comentários gerados nas redes sociais a partir de um evento televisivo (PROULX; SHEPATIN, 2012).

[5] A TV hoje tornou-se, mais uma vez, uma nova mídia” (LOST REMOTE, 2011) (livre tradução da autora).

Referências

10 Breakthrough Technologies, 2010. Disponível em: <http://www.technologyreview.com/lists/technologies/2010/&gt;. Acesso em: 21 abr. 2012.

10 Breakthrough Technologies, 2014. Disponível em:             <http://www.technologyreview.com/lists/technologies/2014/&gt;. Acesso em: 21 abr. 2012.

10 perguntas para Jeffrey Cole. ISTO É NEGÓCIOS, São Paulo, Editora Três, 2011 ed. 736. Disponível em: <http://www.istoedinheiro.com.br/noticias/mercado-digital/20111111/perguntas-para-jeffrey-cole/66128.shtml&gt;. Acesso em: 28 jul 2014.

BULKELEY, William M. Ten Breakthrough Technologies. MIT Technology Review, mai./jun. 2010. Disponível em: <http://www2.technologyreview.com/article/418541/tr10-social-tv&gt;. Acesso em: 21 abr. 2012.

EDELSBURG, Natan. Inside the Social TV book, now available for pre-order. LOST REMOTE, 2011. Disponível em: <http://www.lostremote.com/2011/11/22/the-social-tv-book-is-available-for-pre-order/&gt;.  Acesso em: 22 set. 2013.

HILL. Shawndra. Social TV: Linking Content, Buzz and Sales. Think with Google, 2012. Disponível em: <http://www.thinkwithgoogle.com/columns/social-tv.html&gt;. Acesso em: 18 mar 2013.

JENKINS, Henry. Cultura da convergência. 2. ed. São Paulo: Aleph, 2008.

MONTPETIT, Marie-José. Your content, your networks, your devices: Social networks meet your TV Experience. Disponível em: < http://www.researchgate.net/publication/220686172_Your_content_your_networks_your_devices_Social_networks_meet_your_TV_experience&gt;. Acesso em: 13 out 2013

MONTPETIT, Marie-José; KLYM, Natalie; BLAIN, Emmanuel. Social TV: Innovation at the Edge. MIT Communication Futures Program Yearly Meeting. Disponível em: < http://cfp.mit.edu/publications/CFP_Papers/Social%20TV%20Final%202008.09.01%20for%20distribution.pdf&gt;. Acesso em: 03 jun. 2012.

PROULX, Mike; SHEPATIN Stacey. Social TV – How marketers can reach and engage audiences by connecting television to the web, social media, and mobile. New Jersey: John Wiley & Sons Inc, 2012.

ROSE, Frank. The Art of Immersion: How the Digital Generation Is Remaking Hollywood, Madison Avenue, and the Way We Tell Stories. New York: W W Norton & Company, 2011.

WOLTON, Dominique. Elogio do grande público – Uma teoria crítica da televisão. São Paulo: Ed. Ática, 1996.

Daiana Sigiliano é jornalista e pós graduanda em Jornalismo Multiplataforma pela Universidade Federal de Juiz de Fora (2013).Membro do grupo de estudos e projetos EraTransmídia dos Inovadores da Escola Superior de Propaganda e Marketing (2012), do Grupo de Pesquisa em Tecnologia, Comunicação e Ciência Cognitiva da Universidade Metodista de São Paulo (2013) e Grupo de pesquisa em Redes, Ambientes Imersivos e Linguagens da UFJF (2014). Também é colaboradora da revista SET (Sociedade Brasileira de Engenharia de Televisão). Curículo lattes: http://lattes.cnpq.br/0329090470307145

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Infotenimento na TV brasileira: da grande reportagem ao folhetim exótico (parte II)

Colaboração de Guto Lobato (PPGCOM-USP)

(Clique aqui para ler a primeira parte do texto)

 

A diversão que informa – e a informação que diverte

Esse debate é longo e abre espaço para muitas polêmicas – afinal, noções como objetividade, qualidade da informação, imparcialidade e referência ainda são cânones do campo do jornalismo, e de certo modo “brigam” com alguns recursos narrativos associados ao infotenimento. Cabe, no entanto, pensar na aplicação dessa ideia no fluxo inverso: se o jornalismo parece beber cada vez mais na fonte do lazer midiático, por que produtos comumente destinados ao entretenimento não adotariam estratégias informativas? Afinal, telenovelas, humorísticos, talk-shows e programas de auditório são a menina dos olhos das audiências em muitos horários – revesti-los de assuntos de interesse público é, também, atrair novos olhares.

Dois exemplos relativamente recentes. No rol de obras da novelista Glória Perez, chama a atenção a abordagem de outras culturas por meio de tramas parcialmente ambientadas no além-mar. “Caminho das Índias”, “Explode Coração”, “O Clone” e “Salve Jorge” são exemplos bem-sucedidos do chamado folhetim exótico – formato de telenovela que nasceu nos anos 1960, mas tem voltado a ganhar força, com mais de 20 produções ambientadas em outros países entre 2000 e 2010 (ver Tondato, 2010). Para além do melodrama, das histórias de amor internacional e das muitas idas e vindas entre o Rio de Janeiro e o Oriente Médio, há, ali, informação sobre costumes, modos de vida e a dinâmica social de outros países – muitos deles parcial ou completamente desconhecidos pelo público telespectador.

Personagens citam gírias à exaustão, interagem com “estrangeiros” (brasileiros) explicando-lhes os hábitos; idiomas são traduzidos à custa de muita imaginação, problemas sociais e políticos são abordados. O exótico é representado, enfim, de modo a reduzir sua “não familiaridade”, nos termos de Moscovici (2003); “ancoramos” e “objetivamos” o outro e aprendemos a lê-lo, em muitos aspectos, de maneira semelhante à que Glória Maria propõe em suas expedições ao exterior no Globo Repórter.

Outro campo que flerta com a informação é o dos matinais e programas humorísticos. O caso clássico é o do CQC (Band), híbrido por essência e que traz, entre matérias, quizzes e quadros marcadamente cômicos, reportagens de denúncia que, sem dificuldade, se enquadrariam no campo do jornalismo comunitário ou de serviço. Nas manhãs da TV aberta, a mesma mistura surge em programas como Bem-Estar (Globo) e Hoje em Dia (Record), com reportagens em profundidade sobre temas de saúde, entrevistas com especialistas e notícias “quentes” que serão exploradas mais tarde, nos telejornais diários.

As possibilidades são muitas – e vão além do suposto prejuízo à qualidade da informação e à eficácia dos programas ficcionais e de lazer. Produtos híbridos são bons meios de acesso a conteúdos relevantes que, como telespectadores, costumamos abominar, como matérias sobre economia, política e outros temas que, em jargão jornalístico, não “rendem imagem”; podem, ainda, compor uma importante estratégia de formação cultural e sensibilização das audiências, usando produtos de forte apelo comercial.

Em resumo: os produtos de infotenimento vendem melhor (em termos de anúncios, patrocínios e audiência) e podem fazer reverberar ideias e informação de maneira mais efetiva. Amplificam as funções cognitiva, lúdica e identitária naturais a todo processo narrativo e nos aproximam, como consumidores, produtores ou intermediários, de uma relação mais saudável com o mundo e com os enunciados, textos e imagens que se produzem e, por vezes, se sobrepõem a ele. É, de certo, uma perspectiva passível de críticas, mas da qual não devemos nos esquivar à hora de ler os enquadramentos, efeitos de sentido e impactos das mídias televisuais.

 

INDICAÇÕES BIBLIOGRÁFICAS

Sobre infotenimento

BRANTS, Kees. Who’s afraid of infotainment? In: European Journal of Communication, vol. 13. Págs. 315-335, 1998.

DEJAVITE, Fabia Angélica. INFOtenimento. São Paulo: Paulinas, 2006.

DEJAVITE, Fábia Angélica. Infotenimento nos impressos centenários brasileiros. Estudos em Jornalismo e Mídia, Ano V, nº 1, jan./ jun. 2008, p. 37-48

Sobre telenovelas e paisagens internacionais

TONDATO, Marcia Perencin. Cenários Internacionais na Teleficção: (re) conhecendo-se na geografia do imaginário: consumo – comunicação – identidade. XXXIII Intercom, 2010.

Sobre objetividade no jornalismo

SPONHOLZ, Liriam. Jornalismo, conhecimento e objetividade: ensaios de teoria do jornalismo. Florianópolis: Insular, 2009.

Sobre representações

MOSCOVICI, Serge. Representações sociais. Petrópolis, Vozes, 2003.

 

Guto Lobato é jornalista, mestre em Comunicação (Faculdade Cásper Líbero) e doutorando em Ciências da Comunicação pelo PPGCOM-USP. Pesquisa a construção de narrativas de alteridade no telejornalismo e na ficção televisiva.

Infotenimento na TV brasileira: da grande reportagem ao folhetim exótico (parte I)

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Colaboração de Guto Lobato (PPGCOM-USP)

Quando assistimos à programação da TV aberta, o que exatamente estamos buscando? Dos estudos culturais à sociologia da mídia, muita gente veio debatendo essa questão pelos mais diversos caminhos – estudos de recepção, análises de conteúdo, reflexões voltadas às ciências da linguagem, críticas macrossociológicas. Quase todos chegam no mesmo lugar: de um jeito de outro, como tudo que envolve a produção e consumo de narrativas, buscamos informação, entretenimento e, num sentido mais amplo, identificação e orientação diante do mundo. Ok: mas com que proporção? São coisas separadas ou caminham juntas? Qual é mais válida? E como elas interagem entre si?

Perguntas sem resposta como essas têm a tendência de esvaziar o debate, então é sempre bom buscar respondê-las por uma via intermediária – e, no caso da televisão, esse meio-termo tem nome. Infotenimento (ou infotainment, respeitando suas origens norte-americanas) é um conceito-chave para entender de que modo se comportam os produtos de mídia e sua adequação às audiências na contemporaneidade.

Surgida nos estudos sobre o jornalismo do fim dos anos 1980 e início dos anos 1990, a noção de infotenimento é autoexplicativa: designa a produção midiática que promove a mescla dos discursos informativo e de entretenimento. Conforme explica Brants (1998, p.46), a hipótese se funda no famoso “crescimento da importância do sensacionalismo e das notícias de interesse humano, seguindo o exemplo da imprensa tabloide”. Entenda-se esse “de interesse humano” como assuntos ligados à vida privada, às celebridades, à moda, aos esportes, à gastronomia, ao consumo e aos hábitos e estilos de comportamento, entre outros.

Ou seja, o infotenimento seria, de certo modo, uma amálgama que incluiria a abordagem espetacular/sensacionalista de assuntos não factuais e aquilo que conhecemos como light news – formato que existe desde que o jornalismo é jornalismo. A diferença substancial de hoje, de fato, estaria na forma com que os próprios suportes – o rádio, a TV, os meios digitais, o audiovisual em geral –reforçam a hibridização de gêneros discursivos nas narrativas da mídia.

A mudança vai além do conteúdo e atinge a forma; ao assistir a um telejornal, não “bebemos” informação pura. Junto, consumimos lazer, vemos reportagens sobre beleza, viagens, moda. Viajamos por países exóticos, aprendemos a cozinhar, conhecemos a vida pessoal de apresentadores e rimos de humoristas que fazem matérias sobre assuntos ditos sisudos. Dá para dizer que não é jornalismo?

Múltiplos interesses, formatos híbridos

Voltando às questões iniciais, é possível dizer que, hoje, nossa posição como espectador está – como tudo que envolve o tal sujeito pós-moderno – fragmentada, descentralizada, e isso gerou adaptações na TV aberta. Para captar a atenção das audiências, as emissoras trabalham o discurso informativo de maneira cada vez mais híbrida, e isso vai muito além do clássico uso de personagens: a montagem/edição é envolvente, com cortes, trilha sonora e imagens que se afastam da objetividade rumo à ficcionalidade; o texto usa e abusa da primeira pessoa, da função testemunhal e do envolvimento do repórter com o cenário à sua volta; a impessoalidade cede lugar a um tom pessoal, por vezes jocoso e brincalhão, com direito a backstage, relatos íntimos e lágrimas e risos captados em zoom pelo repórter cinematográfico.

Esse movimento veio sendo adotado na década de 2000 por emissoras como SBT, Record e – tardiamente – Rede Globo, seja para salvar índices de audiência decrescentes (vide “Fantástico”, da última) ou para reformular telejornais e revistas eletrônicas que não mais atendiam às expectativas do público. Agora, os âncoras, antes meros leitores de teleprompter, saem das bancadas, fazem piadas uns com os outros e até se emocionam ao falar de tragédias e datas importantes. Evaristo Costa e Sandra Annenberg vêm à mente de maneira imediata, mas Glória Maria, Carlos Nascimento, William Waack e William Bonner também já dão suas escapadelas do jornalismo sisudo do século XX. Não é preciso ser explícito para flertar com o lazer midiático no hard news.

Em um estudo ousado, que propõe analisar a presença do infotenimento no jornalismo econômico, Fábia Angélica Dejavite identifica que atrair a atenção do leitor para assuntos de relevância pública é uma das principais atribuições do formato. As matérias sobre finanças pessoais, macroeconomia e tendências internacionais informam, em sentido estrito, mas também “satisfazem nossas curiosidades, estimulam nossas aspirações, possibilitam extravasar nossas frustrações e nutrem nossa imaginação” (Dejavite, 2008, p.41).

É fácil derrubar uma das principais críticas aos gêneros híbridos – o esvaziamento da função informativa – ao se ver a Gazeta Mercantil usando o entretenimento a serviço da informação. Os exemplos televisuais que podemos citar são muitos, de programas como Globo Repórter (Globo), Conexão Repórter e SBT Repórter (SBT) e Câmera Record (Record), que mergulham no gênero de grande reportagem, em sua essência já marcadamente ficcional, a telejornais como o Jornal Hoje e as edições do meio-dia da Globo, que adotam técnicas de entretenimento para atrair telespectadores – de quizzes a entrevistas e reportagens sobre culinária, animais domésticos e viagens.

(continua…)

Guto Lobato é jornalista, mestre em Comunicação (Faculdade Cásper Líbero) e doutorando em Ciências da Comunicação pelo PPGCOM-USP. Pesquisa a construção de narrativas de alteridade no telejornalismo e na ficção televisiva.

Paródia de “Friends”: tá no ar em qual TV?

Por Leandro Carabet

“Desculpa, chefe, é que eu tô evitando esses eventos corporativos, porque a minha situação aqui na empresa (Globo) está um pouco complicada…”.

 

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Imagem: Reprodução/Globo

Com essa fala curiosa, Marcelo Adnet, interpretando “ele mesmo”, chamou a atenção na abertura do “Vem aí” da Globo deste ano por parecer criticar abertamente o próprio resultado abaixo do esperado na emissora, diante de um fictício diretor do Projac.

A surpresa gerada por essa postura do “Vem aí” de não se fingir alheio à televisão que os brasileiros estão assistindo e de dialogar diretamente com ela como um todo tem um reflexo bastante evidente no novo programa semanal do próprio Adnet. Assim, o espectador de “Tá no ar – a TV na TV” deve ter se surpreendido com as referências explícitas à televisão extra-Globo nos esquetes, inclusive, por conta das paródias de programas da concorrência como “Brasil Urgente” e “Mesa Redonda” e de comerciais como o do cartão de crédito Visa, na campanha “Posso te falar uma coisa?”.

Chama a atenção o fato de o programa fazer tamanha referência à televisão como um todo. Se pensarmos em “Casseta e Planeta” e “Zorra Total”, o diálogo, ou melhor, o monólogo, apenas se dava com as novelas e programas da própria emissora. Nesse sentido, a edição zapeadora de “Tá no ar” imita uma televisão pulsante que intercala programas mais clássicos, títulos do pay-per-view, conteúdo interativo e comerciais. Porém, o barulho gerado nas redes sociais por conta da paródia “Crentes” (lê-se crents) de Friends apresentada na edição do último dia 22 de maio, revela que embora o formato da televisão parodiada seja familiar aos espectadores, o conteúdo ironizado nem sempre está em sintonia com o que pensa a maior parte das pessoas.

Um chafariz, um sofá, um abajur, seis amigos: Friends que passa na TV até hoje? Sim. Seis cristãos vestidos com saia longa e terno, que a cada duas palavras mencionam “Aleluia” e só falam em dízimo: Evangélicos que vemos na TV até hoje? Não necessariamente.

 

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Imagem: Reprodução/Globo

 

A melodia de “I’ll be there for you” de Friends convertida em “Pago o dízimo, 10% para o pastor”, que soava enquanto os comediantes faziam orações, batismos e coletas de ofertas no chafariz, lembrou a televisão pouco tolerante do começo dos anos 2000, que associava a imagem do evangélico à de pastores réprobos que se aproveitavam dos dízimos. Para citar um exemplo, tínhamos o cleptomaníaco Pr. Wellington da seita Próspero Amanhecer, personagem de Miguel Falabella em capítulo da “Grande Família” de 2002.

Quase dez anos depois, figuras evangélicas diferentes da imagem do Pr. Wellington, sobretudo cantores, têm emergido na televisão que está no ar hoje e fazem participações em programas de variedades, trilhas sonoras, shows de final de ano e programas de calouros. Com estilos próprios variados, longe do estereótipo dos que dançavam no chafariz, os evangélicos têm sido caracterizados nos últimos tempos mais pela mensagem que trazem, do que por alguma associação ao dinheiro. Para citar alguns fatos recentes, uma enquete realizada pelo Uol Entrenimento aponta que a música indicada a receber o título de “Hino da Copa do mundo de 2014” com 79,95% dos votos é“Gigante do amor” da cantora gospel Fernanda Brum, seguida por Ivete Sangalo, com 9,79% e Mc Guimê e Emicida, com 5,36%. Para citar outro caso, vídeos no youtube com mais de 700 mil acessos têm títulos como “Aline Barros emociona Eliana e sua plateia com [música] Ressuscita-me” e “Xuxa chora e se emociona com Aline Barros”.

 

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Imagens: Reprodução

Para se ter uma ideia, na edição anterior do programa, foi feita uma paródia ao Google que apresentava o “SinaGoogle”, site de busca usado por um personagem judeu. Após a cena, ocorria uma espécie de interferência, lembrando as televisões alternativas, que trazia Adnet caracterizado agora como um personagem mais acadêmico que criticava a Rede Globo: “Os judeus, TV Globo, já são suficientemente perseguidos para se tornarem vítima de mais uma piadinha infame!”. No mesmo programa, o personagem apareceu mais uma vez para criticar um comercial que anunciava um “filme cabeça” que estaria nas “menores salas de cinema” do país, dizendo: “Porque agora é bonito atacar o cinema nacional, não é, TV Globo?”. Porém, após “Crentes”, o tal personagem questionador dos preconceitos não apareceu para criticar o que acabara de ver. Ao contrário, a tela ficou escura e apareceu o logo “Entretenimento Globo”, como se com relação ao tema dos evangélicos, a opinião continuasse soando como única.

 

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Imagem: Reprodução/Globo

 

Leandro Carabet. Editor do LIGA TV! Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Meios e Processos Audiovisuais da USP e bacharel em Jornalismo na ECA-USP.

 

A reinvenção da TV

Colaboração de Daiana Sigiliano (UFJF)

 

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Imagem: http://www.twitter.com/TheEllenShow

O atual ecossistema de conectividade em que vivemos marca o fim de uma só mídia. Para atender as necessidades de participação e protagonismo do sujeito multitarefa, o mass media vem se reinventando e aglutinando algumas características das novas plataformas. Na Age of Impatience (1) o watercooler (2) é transportado para o ciberespaço e convida o espectador a integrar o fazer televisão de uma maneira até então inédita; suprindo assim a constante necessidade de imersão do participante.

Na cultura da convergência os programas têm que ir além de uma só tela e flutuar por distintas camadas interativas. Ao expandir os comentários da sala de estar, o sujeito continua vivenciando a experiência coletiva da TV, porém de uma forma mais dinâmica e com inúmeros interlocutores. Por isso os canais norte-americanos estão trazendo de volta o appointment television (3) por meio de ações pautadas na economia afetiva. Entretanto, o atual ecossistema de conectividade não alterou apenas os meios de comunicação de massa. A publicidade também teve que se adaptar diante do sujeito multitarefa, hoje é preciso que a marca vá além e crie uma relação de fidelidade emocional com o consumidor. Para que ele se torne o seu garoto propaganda, e que vista a camisa, não por obrigação, mas porque se sente representado pelo produto.

A 86ª edição do Oscar materializou a nova forma de intercâmbio entre a TV, o marketing e o participante. Potencializado pelas ações do canal ABC – que ao longo da premiação incentivou os espectadores a comentarem a atração no Twitter e interagir com o aplicativo (4) de segunda tela – o evento gerou 11,1 milhões de tweets, atingindo cerca de 1,043 milhões de usuários da rede social (Nielsen Twitter TV Ratings, 2014). Entretanto, uma postagem se destacou no microblog. Durante a entrega dos Academy Award, Ellen DeGeneres propôs um desafio aos espectadores: atingir a marca do tweet mais compartilhado da história. Para realizar tal feito, a apresentadora usou de uma clássica linguagem das redes sociais: o selfie. Ao lado de Jennifer Lawrence, Meryl Streep, Badley Cooper, Julia Roberts, Kevin Spacey, Jared Leto, Brad Pitt, Angelina Jolie e de Lupina Nyong’o ela fotografou o que se tornaria um marco na história da Social TV. A ação era um product placement da Samsung, mas o nome da marca acabou sendo ofuscado pela proporção que a foto tomou. Em apenas 40 minutos o tweet recebeu mais de um milhão de RT’s, tirando o posto de Barack Obama – com 778.329 mil atingido durante a reeleição do político em 2012. O post viralizou de uma forma tão rápida que acabou causando um bug no perfil da apresentadora, que ficou impossibilitada de ganhar novos seguidores. Depois de superar a marca de Obama, a mestre de cerimônias agradeceu ao vivo o público e disse que todos eram vencedores por terem atingido o feito. No fim da noite, o tweet já tinha ultrapassado os dois milhões de RT’s e ganhado inúmeras releituras (5) na web. Segundo dados divulgados pelo Twitter and the Advertising Research Foundation (ARF) a publicação da apresentadora foi visualizada por 32,8 milhões de usuários.

O product placement da Samsung destaca alguns pontos importantes da Social TV. Ao contrário do que se previa o atual cenário de conectividade não representa uma ameaça para a televisão, e sim, uma oportunidade do meio se reestruturar. A relação simbiótica entre a TV e o Twitter faz com que o sujeito compartilhe suas impressões sobre a programação com seus amigos e com outros usuários da rede, potencializando o alcance deste conteúdo. E na maioria das vezes essas postagens exercem uma grande influência entre os internautas. Segundo uma pesquisa (6) divulgada pelo o canal Fox Broadcasting Company (FOX) em parceria com a Twitter and the Advertising Research Foundation (ARF), 92% dos usuários do Twitter já foram influenciados pela plataforma na hora de tomarem uma ação imediata sobre um programa de TV. Ao ver em seu feed seus amigos retuitando o selfie da apresentadora muitos sujeitos acabaram ligando a TV para acompanhar a premiação e integrar a experiência coletiva proporcionada pelo meio. Sobre a influência dos tweets, 40% entrevistados afirmam que já tomaram uma alguma decisão relacionada ao conteúdo televisivo baseada nas impressões postadas por atores e apresentadores. Ou seja, ao escolher Ellen para realizar a postagem a ABC e a Samsung intensificaram, ainda mais, o alcance da ação.

A televisão traz para o ciberespaço a experiência coletiva. O meio percebe a necessidade de se adequar aos hábitos nos novos espectadores, e diante disso, se apropria das algumas ferramentas do ambiente digital. Em contrapartida a abrangência geográfica da TV faz com que o Twitter deixe de ser apenas um apêndice para o mass media e se torne uma extensão do conteúdo gerado. Em meio à fragmentação da audiência e as alterações na forma de produção, financiamento e distribuição do conteúdo televisivo, o maior RT da história do microblog partiu de um evento ao vivo, com hora marcada. A ação realizada durante a 86ª edição do Oscar materializa a hibridação das plataformas, fortalece os meios envolvidos e mostra que o watch and tweet (7) já foi incorporado, definitivamente, pelo fazer televisivo na era da convergência.

(1) Era composta por sujeitos que tem a necessidade de participação e imersão. Por ter a atenção fragmentada, devido aos inúmeros estímulos da contemporaneidade, o sujeito midiático precisa de gratificação constante.
(2) Comentários feitos durante ou depois da programação televisiva.
(3) “Assistir em tempo real”, ou popularmente chamado “televisão com hora marcada”.
(4) Disponível em: < http://mashable.com/2011/02/18/oscars-backstage-ipad/&gt;. Acesso em: 29 mar 2014.
(5) Disponível em: < http://mashable.com/2014/03/03/ellen-oscar-selfie-parody/#:eyJzIjoidCIsImkiOiJfa3VuenFqMGUwODBkMGNqOSJ9&gt;. Acesso em: 28 mar. 2014.
(6) Realizada com 12. 577 mil norte-americanos.
(7) Assista e Tweet, slogan utilizado por várias emissoras norte-americanas para engajar o público.

 

Daiana Sigiliano é jornalista e pós graduanda em Jornalismo Multiplataforma pela Universidade Federal de Juiz de Fora (2013).Membro do grupo de estudos e projetos EraTransmídia dos Inovadores da Escola Superior de Propaganda e Marketing (2012), do Grupo de Pesquisa em Tecnologia, Comunicação e Ciência Cognitiva da Universidade Metodista de São Paulo (2013) e Grupo de pesquisa em Redes, Ambientes Imersivos e Linguagens da UFJF (2014). Também é colaboradora da revista SET (Sociedade Brasileira de Engenharia de Televisão). Curículo lattes: http://lattes.cnpq.br/0329090470307145

Seja um colaborador da LIGA TV!

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Está interessado em debater sobre o universo da televisão? Sejam bem-vindos à LIGA TV! Abrimos um espaço para colaboradores de outras instituições enviarem textos, a fim de enriquecer o projeto com diferentes perspectivas sobre a temática. A ideia é termos uma chamada contínua de textos com análises e reflexões sobre a TV – sobre qualquer um de seus aspectos. Esses textos passarão pela análise da coordenação do projeto e serão publicados no blog e no facebook.

Envie seu texto para o nosso email ligatvusp@gmail.com, com seu nome, instituição e minicurrículo (de até 3 linhas). O texto deverá ter entre 3 a 5 parágrafos.

Pesquisando a telenovela

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Por Mariane Murakami

São muitos os desafios dos pesquisadores que se propõem a investigar a telenovela brasileira. O estigma desse gênero como um produto midiático inferior reflete-se com grande força nos estudos acadêmicos; apesar de existir um consenso sobre a influência da telenovela na sociedade, vista como um importante agente de mudança social, esse produto foi por muito tempo desprezado como objeto de estudo.

Podemos dizer que foi apenas mais recentemente que a telenovela começa a ser construída como objeto de investigação científica; diversos pesquisadores brasileiros empregam esforços no reconhecimento da importância da telenovela na constituição identitária cultural brasileira, mas ainda é forte o debate sobre a telenovela ligada ao seu caráter alienante, pouco crítico e antidemocrático.

É aos poucos que a telenovela ganha, a partir dos novos olhares em comunicação, legitimidade e é percebida como um objeto empírico, passível de ser investigado com seriedade dentro das universidades. Um dos precursores e principais divulgadores desse pensamento foi o Núcleo de Pesquisas em Telenovela (NPTN), criado em 1992 dentro do Departamento de Comunicações e Artes da ECA-USP, o primeiro centro do Brasil destinado exclusivamente aos estudos sobre telenovela e ficção seriada. Desde a sua criação, o NPTN desenvolveu junto aos alunos de pós-graduação e professores orientadores ligados ao núcleo inúmeras pesquisas sobre o tema.

Segundo Lobo e Malcher (1), “em uma década de existência foram produzidos nove dissertações de Mestrado, sete teses de Doutorado, além de duas pesquisas que se desdobraram em Teses de Livre-Docência”. O estudo aponta que desde a década de 70, quando começaram os estudos sobre a telenovela, até o ano 2000, houve um aumento de mais de 900% no total da produção acadêmica sobre ficção televisiva seriada no Brasil. Ainda assim, de acordo com os autores, o preconceito contra a telenovela persiste em certas áreas da Academia, especialmente naqueles que privilegiam a cultura clássica.

É necessário compreender que esse rótulo de entretenimento fútil e alienante esconde a verdadeira importância de se considerar a telenovela como objeto de estudo: o fato de que, ao se lançar um olhar sobre esse produto cultural que direta ou indiretamente afeta a toda a sociedade, “toda uma rede de temas e significados se articula, operando a superação da dicotomia emissão/recepção e indo se inserir no cotidiano social de todo cidadão, independentemente de sua vontade” (2). Afinal, a telenovela é um produto onipresente dentro da grade de programação das emissoras nacionais e também na vida dos brasileiros, e, abordando temas extremamente relevantes, tornou-se importante lugar de problematização do país, das intimidades privadas às políticas públicas. Assim, olhar para a telenovela (e os elementos que a envolvem) é, de certa forma, olhar para a sociedade.

Notas:
(1) LOBO, Narciso J. Freire; Malcher, Maria A. A emergência de olhares sobre a ficção televisiva seriada (Crônica, atualizada dos primeiros 11 anos). IV Encontro dos Núcleos de Pesquisa INTERCOM, XXVII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, Porto Alegre, 2004.
(2) MOTTER, Maria Lourdes.Ficção e realidade: a construção do cotidiano na telenovela. São Paulo: Alexa Cultural, 2003.

 

Mariane Murakami. Editora do LIGA TV! Doutoranda do Programa de Pós Graduação em Meios e Processos Audiovisuais da USP. Mestre em Ciências da Comunicação (USP) e graduada em Letras.

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